sexta-feira, 5 de outubro de 2018

a mais de sete milhas de distância.

o amanhecer lhe deu bom dia pelas frestas da janela que permaneceram abertas na noite anterior. noite essa que não tinha tido um fim, sinceramente. não dormiu um minuto sequer.
passou as horas da silenciosa madrugada revirando-se na cama. em seus pensamentos recônditos. tentou trocar os travesseiros. ler dois capítulos do livro que se encontrava na cabeceira da cama. tomar um copo de água gelada.
colocou os fones de ouvido e deu play naquele álbum do eddie vedder que sempre acalmava o coração. mas ainda ouvia o sangue pulsar em suas veias mais alto que os acordes da canção.
suspirou fundo e conferiu o horário. eram 3am.
nesse momento deviam estar juntos. deitados na cama, na maciez dos cobertores. sem se importar com o despertador que tocaria em poucas horas. discutindo sobre políticas ambientais. pronomes de tratamento. as rimas daquele poema. as placas de trânsito que levariam até àquela cama.
ou talvez estivessem perdidos em suas próprias respirações ofegantes. no emaranhado de lençóis. em sensações transcendentes às belas palavras que cogitava lhe sussurrar ao pé do ouvido em outros momentos. nas peles tocando-se ardentes.
imaginou se na manhã seguinte iria embora logo ou ficaria para o café. se colocariam a roupa depressa e sairiam para mais um dia, esquecendo o que acontecera ali ou se passariam as horas relembrando com um sabor de euforia os momentos de outrora. seria mais um consolo pras questões mal resolvidas ou uma respostas pras suas perguntas tão bem formuladas?
suspirou fundo novamente. mas dessa vez irritado.
de que lhe adiantaria vislumbrar detalhadamente todos os cenários possíveis? ela não estava no seu quarto. ela não estava nos seus braços. ela não sorriria para as suas piadas banais e nem argumentaria contra seus ideais perdidos. o cheiro dela não ficaria no peito dele.
eles dois estavam juntos. de fato estavam. e de alguma maneira sempre estariam. e ele sabia disso. somente. mas ele, ele estava ele ali. em sua cama. na plenitude da sua solitude. 


quarta-feira, 11 de julho de 2018

04

[...]
Mergulhei em um iceberg. Que sensação maravilhosa. 
Eu senti congelar e, por isso, aquecer.
Em minutos abri os olhos e nadei.
Com medo, com emoção.
O ar preso nos pulmões. Não me senti segura em soltá-lo. Quis me afogar, submergir, gritar por socorro, sorrir aos corais.
O sangue pulsou. Como há muito não pulsava.
Porém. E sempre há um porém.
Os ponteiros estavam errados. Invariavelmente estão.
Tarde demais. Cedo demais. Isso já não cabia a mim dizer.
A correnteza levou. Mais uma vez, só tinha a mim.
Nenhum cais, somente o caos.
Em três minutos, tudo desapareceu.
Escuro.

27.03.18

02

I wanna talk tonight
Until the morning light
'Bout how you saved my life

You and me see how we are

os irmãos gallagher não poderiam ter escrito uma música melhor. 10 entre 10 vezes que eu escuto, minha mente vaga por aí e encontra teus sorrisos, o teu cheiro e o teu toque.
esse refrão é tão meu. tão feito pra pensar nos teus olhos escuros e na tua voz doce, no jeito como me segura nos teus braços e faz eu acreditar que a vida foi salva.

[...]

05‎.05.‎2018, ‏‎03:52

batedeiras 3.0


ouviu aquele barulho horrivelmente alto. não identificava a origem. desligou a tv. silenciou os passos. parou de tamborilar com os dedos. era incessante. de que diabos originava ela não sabia. ouviu mais alto. de repente cessou. percebeu. de imediato. enquanto buscava negar. negativo. negativo. positivo. detestava física. mas fazia sentido. quando a ansiedade dentro dela encontrou o peito dele. quando as mãos nervosas seguraram as suadas. quando os sorrisos cruzaram. os olhares tímidos. um turbilhão de pensamentos calara. viraram sensações. uma onda invadiu. cada um deles. na imensidão da bagunça. na infinitude de medos e angustias. nas inseguranças. não compreendeu. nem ele. cientes disso, sentiram.


 

"Tu me encontrastes de mãos vazias
Eu te encontrei na contramão
Na hora exata, na encruzilhada
Na highway da super-informação
Estamos tão ligados
Já não temos o que temer"



07.04.18, 04:40

01

so open up my eyes, tell me I'm alive

ele sentou naquela mesa e pediu um café preto. tão quente quanto queria sentir. tomou o primeiro gole sem se importar. sentiu o cheiro. não o aroma leve dos grãos torrados. dos braços em que  estivera. vislumbrou as cores. não das folhas que o outono derrubara. dos olhos que o encaravam. sentiu o gosto. dos lábios em que se perdera na noite anterior. no emaranhado de fios que tomavam conta do seu travesseiro. sentiu a maciez da pele que se estendia em seus lençóis. a leveza da voz que dizia baixinho. voltou a fechar os olhos. não os deveria ter aberto. aquela noite não precisava acabar. não ainda. havia tanto a ficar. queria poder lhe falar. as besteiras que a fariam sorrir. pegar no colo. levar ver a lua. as estrelas. o impensável. impossível. tornou a abrir os olhos. cogitou a grata surpresa. na péssima manhã. a cabeça pesava. os pensamentos inundavam. não era ressaca, mas preferia fosse. aterrisado ali. não sabia quase nada. nem o nome, nem a tatuagem escondida. o café não esfriara. acabara.


07.04.2018, 04:28

terça-feira, 19 de junho de 2018

milonga

preparou um café forte. 4 colheres de pó solúvel na xícara preta. despejou a água que há minutos fervia. ao fundo tocou milonga. logo ela, que desaprovava a banda, detestava o guitarrista e achava o sentimentalismo forçado.

logo ela: que havia construído muros, colocado grades, paredes blindadas, alicerces de concreto. uma fortaleza própria.

logo ele: que havia organizado a casa, arrumado os cantos, individualizado os momentos. uma realidade tão só, tão sua.

logos eles: adaptados a existências restritas. a vidas circunscritas - estavam ali.
encontraram, sem querer, procurando evitar.
brechas. abriram portas. escancararam os corações. eram feitos de sentimentalismos.

agora estavam ali. recostados no peito um do outro. com cafés quentes, em manhãs frias. o clichê não é à toa, mas não fora previsto.

escapou um 'eu te amo'. ensaiado entre batidas descompassadas.
ouviu-se outro.
e se perderam.
dentre o emaranhado de sentimentos. que estavam ali, sempre estiveram, mesmo que soterrados, velados, esquecidos e adormecidos.

sobrevieram preocupações, exageros. surgiram planos e sonhos.
de repente, dois mundos tão isolados se condensavam no desejo mútuo de estar junto. de participar da vida, nos pequenos detalhes.
relutando diariamente, se perderam.
compartilharam choros, se envolveram em longos diálogos.
sonhos, anseios, medos, angústias, felicidades, devaneios. antes tão particulares, agora se tornaram deles.

ela já não era mais dela.
não completamente.
ele compreende. ele lê e desvenda. num sorriso, numa frase balbuciada no travesseiro, numa mordida de lábio.

ainda há resquícios. mecanismos de defesa e fragmentos de medo de uma realidade tão próxima, mas que ele afasta num olhar.

ela tomou um longo gole de café e lembrou do que ele prepara.
olhou para os raios de sol que entravam pela janela e sentiu satisfação. por ter alguém que queria que o dia fosse bom. que tudo terminasse bem.
uma mão a segurar a tua. a dizer que tudo ficaria bem.
e ficaria.
eles sabem.

um resguardado em meio ao caos.

Pra dançar enquanto o Sol demora
Para chegar trazendo aurora
E a luz que cega e me dá medo
E como um torpedo
Eu deslizo, eu voo num mar de lençóis
E cada dobra conta histórias
De muitas delas sinto medo
São muitos enredos
Enrolados e embriagados como nós
Tão a sós, como nós, tão a sós

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Uma mão azul

Ele a encontrou ali, perdida no meio de caixas fechadas, garrafas vazias, jogos inacabados e discos tocados. Parecia rijo. De madeira ou lata enferrujada? Tocou. Por curiosidade. Por necessidade. Era gelado. Abriu os pequenos olhos assustadamente. Eles brilhavam. Tomou para si, ignorando os avisos. Apertou em seus braços, contra seu peito, indiferente aos choques. Aqueceu o pequeno coração, ora por café, ora por palavras. Num piscar de olhos, era seu.
Apesar do frio. Apesar do medo. Apesar do tempo.  Aquele pedacinho azul do mundo segurou a sua mão e ali permaneceu, apesar do perigo. Apesar dos ventos que sopravam do Sul. Deram um passo juntos e sorriram para o acaso daquela noite de domingo. Apesar de ser primitivo, tudo o que mas queriam era perpetuar aquele verbo.
Como rimar no infinitivo.