quarta-feira, 18 de abril de 2012

Embaixo do travesseiro.

                E aquela noite, antes de deitar, levantei de leve o canto do meu travesseiro. Não é que ainda estavam ali? E eu que pensei que mudando de pijama, colocando outra música tocar e tomando uma xícara de chá eles iam sumir. Doce ilusão. Quanto às ilusões, elas continuam ali também. Mas que coisa. Resolveram aparecer novamente essa noite. Pra que?
                Agora eu estava sem saber o que fazer. Um cansaço que me doía, as lágrimas que perturbavam e me faziam uma visão turva, as mãos sempre geladas, fazendo machucar cada movimento. As luzes foram apagadas e as cobertas remexidas de forma silenciosa e cautelosa. Fiquei aguardando, espiando por um cantinho, mas eram espertos demais para se mover. Permaneciam lá, estáticos, esperando que eu colocasse a cabeça no travesseiro para se manifestarem. Já sei o que fariam, penetrariam minha mente, depois iriam invadir meu coração, correriam pelas minhas veias, me deixando inquieta.
                Em noites como essa, fariam doer lugares esquecidos dentro do meu coração, fariam acordar memórias que eu tanto lutara pra esquecer, fariam meu sangue correr desordeiro, como se perdido. Eu me perderia em mim mesma, como acontecia na maioria das noites.  Me deixariam acordada, ansiosa e arrependida. Me fariam mil perguntas e já adiantariam que as respostas jamais seriam encontradas.
                Eu sabia de tudo isso, e embora me fizesse mal pensar, decidi que naquela noite seria diferente. Levantei de leve o canto do meu travesseiro, vi-os dormindo pacificamente, eram tão lindos. Quase perfeitos. Construídos e pensados aos poucos, com todo o cuidado e carinho do mundo. Sabe aquelas obras clássicas? Pois bem, eu os assemelho a elas. Tinham cores, formas e objetivos bem traçados. Mas, como tudo que é bom demais é de se desconfiar, eles me faziam mal.
                Recolhi, cuidadosamente, com um aperto imenso no peito, aquele punhado de sonhos que eu guardava embaixo do travesseiro. Olhei-os mais uma vez, observei cada um e me lembrei de como os havia idealizado e sonhado noite após noite. Derramei uma lágrima sobre aquele que mais me tocava, e dei adeus, antes que ele pudesse acordar.
                Naquela noite, antes de dormir, recolhi meus sonhos debaixo do travesseiro e os coloquei para fora da janela, para que se perdessem e que não encontrassem mais o caminho de volta. O quanto eu queria não ter feito isso, cada uma deles soube. O quanto eu precisei fazer isso, bem eu sei.
                E, pela primeira vez, adormeci ali, sem pensamentos, nem mágoas e ilusões. Adormeci, assim, sem os meus sonhos.



terça-feira, 6 de março de 2012

Aqui

Ou em qualquer outro planeta/mundo/asteróide, saibas que meu pensamento está em ti, que meu mundo só é real se nele tu existires, dessa forma é que ele gira e sobrevive, lutando contra a distância e a saudade: sabendo que o seu Norte não está perdido, que ele sorri e tudo então, de repente, fica bem. Meu Norte. Minha rosa. Meu amor, eu te amo!


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Saibas, doce e leve

         Vestindo meu velho suéter andava pelas ruas, buscando distração, buscando algum indício de vida. As pequenas luzes que brilhavam no céu me levaram a ti, e descobri, na mesma noite que aquela noite era tão negra quantos teus olhos. Entrei ali, quase sem querer, quase sem saber. O sossego que eu tinha se perdeu quando as cortinas de veludo vermelho se abriram, assim como se perderam as fitas nos teus traços mais belos. Não faço a mínima idéia de qual música tenha tocado, alguma clássica, que combinava com teu collant rosa antigo, a saia rodada, que dava a impressão de visualizar um anjo dançando em minha frente. Confesso que o teu feitiço tomou conta de mim, as poltronas confortáveis fazia? sentir como se as nuvens estivessem ao meu alcance. A cada rodopio teu, minha ansiedade. A cada passo teu, um disparo meu, o coração batendo sem ritmo ou no teu ritmo. A ponta dos teus pés tocando o chão tão delicadamente quanto meu sangue pulsando nas veias. Meu corpo estremece a cada ato teu, ele palpita de calor. Teus olhos perdidos pela multidão, meus olhos fixos em ti. Alegre aos teus belos sorrisos, permanece aqui, entre tuas idas e vindas, ó formosa bailarina, teu amador de estréia, teu amor de menina.


Reescrita da poesia Caricata Dançarina, Bruno Fabro.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Breve

                uma noite quente de fevereiro, e lá estava eu, em meio a um mar de lágrimas, mergulhada em nostalgia, perdida nas minhas palavras. Resolvi me consolar, parecer forte para mim mesma, ter motivos para seguir, escrevi que depois de um furacão, não importa quanto tempo depois, haveria um arco-íris. Que bobagem, no fundo, naquele instante, eu sabia que o furacão duraria por tempo indeterminado e o arco-íris ia se perder a caminho do meu céu.
                O céu, antes preto, foi cambiando de cores, passou pelo sombrio quantum, atenuou para cinzas e foi se tornando azul. Azul naval, azul meia noite, azul camarada, azul cobalto. Adoro azuis, mas aqueles tons ainda me pareciam melancólicos, traziam consigo os estragos de uma noite. O furacão intenso, era agora brisa.
                Não sabia que a paleta de azuis é quase infinita, fiquei sabendo numa noite dessas, com um azul céu profundo. Desde aquele dia, conheci todos os azuis possíveis, os mais claros que se aproximavam do branco das nuvens, os mais vibrantes, semelhantes aos calafrios que corriam pelo meu corpo, os que me deixavam sorridente, eufórica e até mesmo aqueles que faziam eu me sentir perdida, os causadores de medo e insegurança.
                Houve um azul que trouxe o arco-íris. O maior e mais bonito que eu já vira por aqui, o que dura por tempo indefinido, que brilha cada dia mais. Porém, nenhum tom era igual àquele azul que penetrava nos meus olhos, havia uma faísca acesa, flamejando, dominando a noite, like a firework...

                então, o calor de fevereiro passou e levou consigo as sensações de outrora. Agradeço ao inverno pelo dono dos olhos azuis, de cores inconcebíveis que nele estão, cores com o poder de atenuar tudo o que fez mal, tudo o que poderia me fazer pensar que isso é só uma besteira, que é tolice esperar o céu abrir e um arco-íris surgir.
talvez a razão pela qual todas as portas estejam fechadas é que você possa abrir uma que te leve para a estrada perfeita, como um relâmpago seu coração vai brilhar e quando chegar a hora, você saberá


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Eu esperei

                Eu esperei o sol sair, como uma criança espera para brincar, olhando pela janela, olhando para o céu, pedindo a Deus, que, por favor, só por hoje, parasse de chover. Eu esperei impaciente, batendo os pés, estalando os dedos, mordiscando os lábios, a noite chegar e trazer ele. Eu esperei, com o corpo tremendo, os órgãos inertes, os olhos brilhando, receber um sorriso, um abraço forte, um ‘obrigada por estar aqui’. Eu esperei o que todos esperam, esperei reciprocidade, mas nem todos estão dispostos a praticá-la. Talvez ele seja só mais um que não sinta, por que eu me preocupo tanto? Eu pensei que ia ser diferente. Esperei as lágrimas caírem e uma por uma secarem, olhei para trás, também pensei que Romeu e Julieta ficariam juntos e não ficaram. Decidir pôr um fim nisso, pensar em nós dois como sendo algo importante pra ti está me fazendo mal. Olha pra cá, ei, me escuta. Quem me chama agora, meu lado racional, não diga que me avisou. Não, não é isso, só te suplico para cessar essa tua espera, de fechar os olhos e viajar para perto dele, de acreditar nessa história de amor, de sentimentos verdadeiros e, só mais uma coisa, me escuta, ao menos dessa vez, não te deixe abater. Eu esperei mais uma vez, mas agora foi diferente, sentei na minha cama, olhei pro teto, olhei pro chão, o tempo não passa, eu o obriguei a passar e foi o que ele fez, passou, deslocou esse anseio do centro das atenções. Mesmo doendo demasiadamente no fim foi breve, mas foi desesperador. Agora eu estou aqui, olhando pela janela esperando o sol sair, euforicamente, ainda. Eu sou mesmo uma idiota.
I'll wait for you there like a stone

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Existe algo além?

                À noite podia até caírem algumas ou todas as gotas possíveis do céu, da mesma maneira que o Sol podia enviar todos os seus raios para a janela dela, o vento soprava forte, com aroma de baunilha, ou fraquinho, fazendo-a lembrar do verde da grama. A música já fora tocada em outros ritmos, meio bossa nova, meio rock ‘n’ roll, o sorriso escondeu agonias e exibiu sua euforia, o dia já nasceu tão quente quanto o seu sangue e em outros momentos tão frio quanto suas mãos. Mas quer saber o que eu penso de verdade? Nenhuma dessas coisas importa, ela não prestou atenção em nenhum desses detalhes enquanto esteve com ele.
                Talvez tenha chovido a noite inteira, esfriado, tocado sua música preferida, folhas de árvores podem ter enchido o chão por onde caminharam. Da mesma forma, em algum momento o Sol brilhou ofuscantemente enquanto ela esperava a hora de vê-lo, alguns pássaros cantaram para eles, só para eles e se eu não me engano, até o Pernalonga esteve lá, para marcar alguma coisa. Isso não importa, porque nada, nada se compara a ele.
                E eu não a condeno. Quem consegue olhar para os lados quando dois globos azuis sorriem pra ti? E se fossem só os olhos. Talvez você consiga tempo para prestar atenção em outras coisas, mas ela não precisa desse tempo e nem o quer. Ela está no calor dos braços dele, perdida em sorrisos inigualáveis, assimilando cada palavra inesperada que a voz suave proferia, sentindo seu corpo tremer só de estar ao seu lado, ela só tem tempo e atenção à perfeição que encontrara.
O fato é que ela procurou pelas respostas erradas por muito tempo, mas tudo o que tem em sua frente fazia uma voz nascer dentro dela dizer: vamos lá, não seja boba, garota. Anda, te entrega.
E foi isso que ela fez, seguiu a voz que vinha do seu coração, e não existia mais nada além dele.

Quanta besteira

            Madruga faz pensar, a melodia daquela noite provinha das gotas de chuva no telhado, o velho rock tocava naquele quarto fechado e escuro, o mesmo clima que esfriava suas mãos, esfriava também os sentimentos. Penso que o clima não tenha esfriado tudo, foi só uma atmosfera bem propícia para isso, é como um dia de chuva e um céu de tons cinza, só servem para acentuar aquela tristeza que parece não ter fim.
            Já são quatro horas da manhã, e ela continua revirando-se na cama, perguntando a si mesma, às fotos presas na parede, aos ursinhos sorridentes e macios, por que. Por que pensar tanto nele, neles dois, no sentimento que algum dia ela creu ter recebido? Quantas vezes ela tinha olhado no espelho e prometido ser forte o bastante para não chorar, ser fria o bastante para não se permitir sentir aquilo tudo novamente. Talvez ela tenha perdido a conta, também, de todas as vezes que disse a si mesma: tudo bem, dessa vez não vai doer, vai ser diferente – e seus olhos brilhavam ao afirmar com toda a certeza do mundo – eu sei!
Em algum momento ela adormeceu, talvez tenha cansado de chorar, já não havia mais maneiras de se enganar. Talvez ela fosse só uma válvula de escape, talvez só fosse cedo demais pra tentar amá-la do jeito certo.