domingo, 13 de janeiro de 2019

1.1

Merda, eu tenho que parar com isso, essa porra ainda vai me matar. Sussurrou pra si mesma enquanto abria a latinha de Coca Cola gelada e salivava pelo primeiro gole.
Não dá mais pra voltar pr'aquele lugar. Não dá mais. Pensou ele, pela quarta vez naquela tarde quente que fez sua camiseta branca molhar de suor.
Despretensiosamente, dobraram na mesma esquina. Por sorte, por azar, ou por mero acaso do destino, seus olhares de imediato se encontraram.
Enquanto ele tratou de levantar os ombros e consertar, mesmo que por uma fração de segundos, a postura; ela abriu aquele sorriso resplandecente que deixava qualquer um sem reação, mesmo que sentisse sua mandíbula tremer de nervoso.
Mas que diabos... Quando foi que eu passei a me sentir vulnerável pela presença dele? Buscou na própria memória, tentando controlar as pernas pros passos parecerem naturais. Ou melhor, quando foi que eu voltei a me sentir assim?
Ele inspirou tanto ar pra manter o peito aberto que pensou logo desmaiar. Precisava expirar. Respirar rápido e ofegante. Caralho... Ela é a mulher mais linda que eu já vi na minha vida! Contou até 10 pra não gritar isso aos 4 ventos.
Oooi. Porra, eu precisava mesmo alongar tanto assim? porra, porra.
E aí?! E aí, meu Deus, eu sou um imbecil. E aí...
Nenhum dos dois ousou cessar os passos milimetricamente calculados para prolongar a conversa.
É óbvio que ela queria abraçar ele mais uma vez e sentir os músculos dos braços e do peito, se sentir acolhida naquele que fora, por tantas noites, o seu lugar mais seguro do mundo. Quis perguntar como estavam as coisas, saber se ele acabou de gravar aquele disco. Esperava que ele contasse ter incluído a faixa que compôs pra ela.
Ele cogitou pegá-la pela cintura, levantá-la e em um breve giro sentir o perfume se espalhando pelo seu corpo. Queria contar sobre o novo álbum, perguntar sobre o livro que ela prometeu não desistir de escrever. Sentia saudades daqueles lábios nos seus, escorregando pela barba rala e pelo pescoço todos os finais de tarde.
Puta que o pariu, como eu sinto falta dela. – Falou pra si mesmo.
Por um tempo tão curto que os ponteiros não saberiam indicar, olharam no fundo dos olhos e quiseram parar ali mesmo, dar as mãos e mover os passos na mesma direção. Voltar àquele tempo. Não podia ser tão difícil assim. Eles conseguiriam.

Cruzaram um pelo outro, e ele olhou pra trás. A bunda dela continua uma delícia.
Ela se certificou de ter dado o espaço suficiente e virou-se, imaginou ele sem camisa na sua cama.
A poucos metros dali estava aquele lugar que costumavam tomar café juntos. A parede ganhou um novo revestimento e as madeiras do teto foram repintadas. Nenhum dos dois nunca mais entrou ali depois do último dia.
Ele chutou uma pedra o mais longe que pôde e sentiu uma lágrima escorrer pela extensão do rosto cansado.
Merda. Eu preciso de um chocolate. Ela esbravejou no seu íntimo enquanto mordiscava com raiva o canudo.
Tá decidido. Amanhã eu não volto mais. N ã o  d á  m a i s. Balançou a cabeça lentamente e colocou os fones, ouvindo a música que fez pra ela.
Amanhã eu saio mais cedo. Pego um trem e não preciso passar por aqui.  Prometeu-se enquanto escolhia duas barras de chocolate ao leite na padaria das janelas redondas.
"Fly. High. What's real can't die" Ele ainda guardava o bilhete dela, escrito à caneta preta e deixado em cima da mochila na manhã em que a deixou para trás. A música que ela tanto adorava... Por instantes, retomou uma esperança há tanto tempo morta.
No caixa, ao abrir a carteira, ela leu o lembrete que havia colocado no dia seguinte ao que haviam decidido:
You're gonna get what you give, just  d o n 't   b e   a f r a i d   t o    l e a v e.

Novamente em lados opostos, cantaram baixinho. "This world is gonna pull throug. Don't give up."

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

7.2

Se eu pudesse te dar um conselho, eu diria ela falou enquanto tomava um longo e vagaroso gole de café e ouvia o refrão alongado de pale blue eyes – escolha um amor fácil.
A gente aprende, pelos romances midiáticos que, quanto mais difícil e inacessível um amor, mais gratificante ele é. A ilusão de atravessar sete mares. Ah, tudo isso é tão dolorido na vida real. Quando é o teu corpo que congela. Quando são as tuas pernas que não suportam mais. Quando o grito de pânico é tão grande que se transforma em um silencioso suspiro, o qual se acumula a tantos outros e preenche, com pura lástima, cada pedacinho de uma antiga esperança.
Tentar incessantemente se adaptar a um espaço que não é teu, a um mundo que não tem nem sequer uma frestinha pra que tu adentre, a uma pessoa que fechou as portas a cadeados e aumentou a altura dos muros. Nada disso é amor. Isso é sofrimento. É impor-se mais dores e infortúnios que se pode suportar cotidianamente.
A gente acostuma a receber migalhas a vida toda e acha que é o suficiente. Tente dar a um pássaro um pão inteiro. Ele vai se assustar, vai bater asas e fugir o mais depressa que conseguir. Com os nossos amores é a mesma coisa. Temos medo de um amor completo, porque as migalhas sempre bastaram, porque nunca, ninguém, ofertou mais do que isso.
Viver de migalhas é horrível. É passar os dias a ciscar o chão a procura de mais. É abrir mão de tudo, apenas pra esperar que caia mais uma migalha. Eu vou repetir, o quanto for preciso para que entenda.
Embora sozinha nos seja o bastante, ao lado de alguém é preciso sentir-se segura. Sem isso, não há nada que faça sustentar. Tu sabes disso, mas repete os mesmos erros que eu. 

Thought of you as my mountain top
Thought of you as my peak
Thought of you as everything
I've had but couldn't keep

03

Quer saber? Liga pra ela. É quinta-feira. Ainda há tempo!
Não procure saber se não puder lidar, já havia me convencido.
Vai passar. O pior já foi. Mas é igual. Mais do mesmo.
Inevitavelmente eu coloquei em uma rota oposta a qual gostaria.
Os trilhos não podem mais se mover. Errei o caminho.
Fim de estrada.
Segue!

23.03.18
a tua liberdade me assusta.
a maneira como não precisas de mais nada além de ti mesmo.
não que eu precise. mas de ti, eu quero.
eu quero contar do meu dia. eu quero falar o que virá por conseguinte. mesmo que seja uma soneca desmotivada e preguiçosa em uma sexta-feira à tarde.
eu quero que tu participe. de cada pequena coisa da minha vida. das minhas conquistas, dos meus sonhos, dos meus devaneios constantes.
eu não tenho segurança ao teu lado. e isso causa uma inércia inimaginável.
se antes eu sorria e me sentia livre por isso, agora me sinto aprisionada. em um loop infinito de ansiedade e preocupações que não parecem ter uma solução. é uma queda livre em um paraquedas que nunca abre.
a minha frase preferida pra manter a sanidade mental se perde em batimentos arritmados de um coração que espera sem saber o que esperar. é um salto no impensável. mantenha impensável.
[...]


Olhando daqui, é pior.

Poderia continuar aqui por mais três semanas. Três meses. Três anos... Ou até mesmo trinta anos, como chegamos a cogitar. Eu buscaria encontrar novas maneiras e métodos menos ortodoxos pra fazer isso funcionar. Eu tentaria, diariamente, tecer essa quantidade incontável de fios soltos que se perdem pelas minhas mãos e lentamente estão perdendo-se. Eu procuraria nos sorrisos perpetrados em fotografias de uma noite de domingo, em mensagens redigidas no quarto escuro, no peito que tantas vezes cessou minhas dores; eu procuraria motivos pra estar aqui e pra acreditar que não é tão ilusório quanto parece ser. Eu controlaria as crises, engoliria os choros e sufocaria os exageros; eu atentaria para os gestos e mensuraria as frases; eu abafaria os sentimentos e aceitaria a realidade que me é entregue. Eu faria tantas outras coisas. Eu tentaria tantas vezes. E mesmo assim, todas as manhãs, eu ainda acordaria envolta de solidão. Como as gotas que molham a minha face na noite que se estende. Eu poderia ficar aqui pra sempre e, mesmo assim, os fantasmas jamais iriam desaparecer. Eu jamais pertenceria a isso. Esse não é o meu mundo. Nunca foi. Eu jamais fiz parte de nada disso.  Eu estou sozinha.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

3.3

é uma dor imediata. fulminante. por alguns segundos a boca seca e eu consigo ouvir claramente os meus últimos batimentos cardíacos. tudo está vazio. talvez isso seja a última coisa que resta. não há poeira levantando, tampouco borboletas voando. é apenas vazio, antecedendo um alívio imediato. acabou. o sangue escuro escorre pelo lugar que antes estava gravado o nome. deve ser melhor. é melhor que assim seja. como sempre acaba. como eu previ que acabaria.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

a mais de sete milhas de distância.

o amanhecer lhe deu bom dia pelas frestas da janela que permaneceram abertas na noite anterior. noite essa que não tinha tido um fim, sinceramente. não dormiu um minuto sequer.
passou as horas da silenciosa madrugada revirando-se na cama. em seus pensamentos recônditos. tentou trocar os travesseiros. ler dois capítulos do livro que se encontrava na cabeceira da cama. tomar um copo de água gelada.
colocou os fones de ouvido e deu play naquele álbum do eddie vedder que sempre acalmava o coração. mas ainda ouvia o sangue pulsar em suas veias mais alto que os acordes da canção.
suspirou fundo e conferiu o horário. eram 3am.
nesse momento deviam estar juntos. deitados na cama, na maciez dos cobertores. sem se importar com o despertador que tocaria em poucas horas. discutindo sobre políticas ambientais. pronomes de tratamento. as rimas daquele poema. as placas de trânsito que levariam até àquela cama.
ou talvez estivessem perdidos em suas próprias respirações ofegantes. no emaranhado de lençóis. em sensações transcendentes às belas palavras que cogitava lhe sussurrar ao pé do ouvido em outros momentos. nas peles tocando-se ardentes.
imaginou se na manhã seguinte iria embora logo ou ficaria para o café. se colocariam a roupa depressa e sairiam para mais um dia, esquecendo o que acontecera ali ou se passariam as horas relembrando com um sabor de euforia os momentos de outrora. seria mais um consolo pras questões mal resolvidas ou uma respostas pras suas perguntas tão bem formuladas?
suspirou fundo novamente. mas dessa vez irritado.
de que lhe adiantaria vislumbrar detalhadamente todos os cenários possíveis? ela não estava no seu quarto. ela não estava nos seus braços. ela não sorriria para as suas piadas banais e nem argumentaria contra seus ideais perdidos. o cheiro dela não ficaria no peito dele.
eles dois estavam juntos. de fato estavam. e de alguma maneira sempre estariam. e ele sabia disso. somente. mas ele, ele estava ele ali. em sua cama. na plenitude da sua solitude.