terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vivo num clipe sem nexo,

            uma manhã fria, um escritório pouco ventilado, e pelo acúmulo de caixas, pouco espaçoso. Sobre a mesa alguns livros empoeirados e amarelados, uma caixa de bombons pela metade, folhas e canetas, um poster de Chuck Berry, um disco de vinil dos Beatles, uma luminária verde, uma televisão preto e branco (1,74 bilhões de cores de uma LCD me causa dor de cabeça). Uma taça de conhaque envelhecido por quinze anos esquentava enquanto eu andava em círculos sobre o tapete. O tempo passava depressa, e com ele, iam minhas ideias, nada que eu pensava parecia bom o suficiente. Tudo sempre tão técnico.
Girei o globo entalhado em madeira, pensei em falar sobre minhas viagens ao redor dele. Mas não tem graça nenhuma ler sobre os oito mil quilômetros da Grande Muralha, construídos durante a China Imperial, com a mão-de-obra escrava de um milhão de homens. Falta algo nisso, falta uma pitada de emoção, romance, fantasia. Não, definitivamente, não quero escrever sobre isso.
           Sentei na cadeira e fiquei pensando, toda acusação e resposta são clichês. Não há sobre o que falar, não há nada que já não tenha sido escrito, argumentado, contra argumentado. Lembrei de Shakespeare, o gênio, com seus personagens de nomes difíceis, com suas frases de efeito, e posteriormente, lembrei de Woddy Allen (outro gênio), que falou que 'até mesmo os personagens criados pelo grande Shakespeare irão, dentro de milhões de anos, deixar de existir'.
Estava diante de uma contradição. Quanto mais eu pensava, menos entendia o que queria dizer. Idéias e palavras misturadas, ausência de concordância verbal. A culpa era minha, sempre exigi mais do que o normal de mim mesma. Queria inovar, surpreender, diferenciar, chocar. Bendito perfeccionismo. Tudo isso me levou a um bloqueio criativo difícil de sair.
Levantei novamente, e ouvi Bob cantando: In every life we have some trouble, when you worry you make it double, don't worry, be happy.
É isso. Muitas pessoas já tiveram bloqueios criativos, é totalmente comum, pela pressão no trabalho, doenças, decepções, depressão... Mas as pessoas nunca param para escrever sobre isso, e já que não o fizeram. Eu o fiz. Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou. Um personagem francês retrocesso, meio Bossa Nova e Rock n' roll. Faz parte do meu show.













                                                                          original: março de 2010

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