Eu ainda espero que chegue o dia que eu vá olhar pra ti como eu olho pra qualquer outro, sem ficar sem jeito, sem sentir meu corpo variar de temperatura mil vezes em milésimos de segundo, sem sentir meu rosto corar, sem precisar de alguém ou de algo que sirva de apoio para o corpo dormente e os olhos que teimam em te procurar, e ao encontrarem os teus, fogem de imediato. Eu ainda espero não olhar pra ti e lembrar de como era olhar para um pedaço meu, olhar para teu sorriso sem saber que um dia ele foi meu, ver teus olhos piscarem em outra freqüência dos olhos que piscavam para mim, ver teu cabelo e saber o quanto demora pra arrumar, e como alguns segundos o desarrumam. O meu estômago sentir moscas caindo, bolinhas de gude se batendo, o sangue correndo na contra-mão, na hora errada, o coração batendo arritimado, como o teu. Espero poder ouvir uma música e não pensar em ti, não pensar em como aquele verso traduz um pouco do meu sentimento infindável, não pensar em te pedir para voar comigo, não ficar balançada quando tu apareces nos últimos sonhos da madrugada. Eu ainda espero não camuflar, involuntariamente, o que eu sinto quando te vejo, mesmo que não sinta. Não ser a concretização do que Nei Van Soria canta em ‘Estou sentado num jardim inglês, enquanto o mundo segue a girar, enquanto alguns choram ao partir e alguns outros ao chegar, e todos choram de saudade da princesa que não vai voltar’.
Minha memória raramente me trai, ela é ótima, nós sabemos disso. Que fique claro. Não há amor, há recordação. E, nós vivemos de reminiscências. E tu és uma daquelas memória que ora queremos lembrar, ora queremos esquecer.
Eu aprendi que o melhor que tem a se fazer quando se tem alguma coisa mal superada dentro de nós, é falar. E é só isso que eu gostaria de falar, mesmo que eu não precise dar explicações. Algumas eu faço questão de dar! E esta é uma delas.
E eu ainda espero... Espero que possa pra sempre ver esse sentimento como uma memória, uma lembrança, e nada além de uma história vivida, um livro sobre a amostra de como o amor é um paradoxo, e como não conseguimos decifrar esse problema camoniano, um livro começado, lido, terminado e fechado.

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