Arrumando o guarda-roupa, guardando vestidos, blusinhas, saias, shorts. Vi algumas mantas e me bateu uma saudade do inverno.
Saudade da inspiração para escrever que se apresenta apenas no inverno. Saudade de acordar com preguiça de tirar os cobertores de cima de mim. Saudade dos olhos sonolentos numa fantástica apatia. Saudade de colocar duas meias, uma porção de blusas, jaquetas, luvas, mantas e tocas. Saudade de tomar chocolate quente. Saudade de passear na neblina. Saudade das cores opacas que as pessoas usam. Saudade de ver aquela fumacinha saindo da boca quando se fala. Saudade de comer um pão de queijo quentinho. Saudade de ver as paisagens cobertas pela névoa. Saudade das folhas de árvores com orvalho. Saudade de pisar no chão úmido. Saudade de parecer uma acanhada bola de malha. Saudade de dizer, com orgulho, para os outros estados que a temperatura aqui está abaixo de 10 graus. Saudade de caminhar na beira da praia deserta de jaqueta. Saudade da dificuldade que o Sol tem de brilhar. E, saudade de quando ele consegue expor alguns raios. Saudade de passar o dia com frio, porém iluminada pelo astro rei. Saudade daquela garoa sediciosa que teima em cair. Saudade de reclamar que o inverno não acaba. Saudade daquela camada de gelo branca que amanhece sobre a grama. Saudade de assistir uma comédia romântica embaixo de um cobertor aconchegante. Saudade das águas congeladas, das águas evaporando. Saudade de abrir os olhos numa manhã escura. Saudade de caminhar sob uma leve chuva, ou sobre melhor, sob aquelas lágrimas puras que caem do céu cinzento. Saudade deste céu com cores fundidas através de uma multidão de matizes e entonações, amarelos, navais, carmins, azuis borrifados de nuvens, escuridões enevoadas. Saudade das paredes e vidraças embaçadas e soadas. Saudade do calor que os abraços têm. Saudade do sossego das ruas. Saudade das copas de árvores envergadas. Saudade do minuano gelado que sopra durante a noite e o início da manhã. Saudade do gosto distinto que o chimarrão apresenta no inverno. Saudade de um cálice de vinho. Saudade do soar dos pássaros pela manhã. Saudade do glamour, da melancolia, da sobriedade e do compasso que só o inverno tem. Saudades. É, eu contenho uma porção delas.

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